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A saga de uma apátrida: entrevista com Maha Mamo, porta-voz da campanha "I Belong" - ONU

Depois da sobrevivência, a maior saga de um ser humano deve ser o desejo inalienável de ser reconhecido como pessoa de algum lugar, ser reconhecido como nacional de algum país, ter uma nacionalidade, documentos, a cidadania mínima e necessária para poder existir num mundo que precisa saber quem você é e de onde vem para lhe abrir as portas.

Para a maioria das pessoas isso acontece logo ao nascer. Mas não é o mesmo para milhões de apátridas que, do ponto de vista legal, são apenas uma sombra com contornos humanos sem direitos naturais.

Maha Mamo, libanesa, filha de pai cristão e mãe muçulmana, teve na impossibilidade legal do casamento inter-religioso dos pais na Síria, que fugiram para o Líbano para se casar, o começo de sua história como apátrida.

Sem a condição legal de ser reconhecida como síria e nascida no Líbano, onde não existe nacionalidade por territorialidade, ela e os irmãos passaram a infância, a juventude e o começo da vida adulta como pessoas sem pátria, sem nacionalidade, sofrendo todas as dificuldades para estudar, viver e sem nenhuma possibilidade de viajar.
“Sem documentos, mesmo sendo correta, sem ter feito nada errado, eu via um carro da polícia em Beirute e ia para o lado contrário. Sem documentos, eu poderia ser presa”, disse ela, logo no início da conversa, ao contar sua história ao “Pensando o Brasil com Adalberto Piotto”, pela TV CIEE.

Foi justamente o fato de o Brasil abrir as portas do país aos sírios refugiados de guerra, em 2014, o que permitiu a ela e os irmãos entrarem no país e começassem a longa jornada de serem reconhecidos como refugiados, depois o reconhecimento como apátridas, o que exigiu mudança na legislação brasileira e, finalmente, em 2018, aos 30 anos, a conquista da sua primeira nacionalidade, a nacionalidade brasileira.

Maha Mamo, que carrega uma bandeira do Brasil em torno do pescoço numa demonstração de orgulho em ser brasileira, tem formação superior, pós-graduação, fala quatro idiomas mais o português que aprendeu para conquistar a nacionalidade. No entanto, as dificuldades iniciais como refugiada num novo país e sem dominar o idioma, a levaram a distribuir panfletos, como seu primeiro emprego em Belo Horizonte, em 2014, no início da pior crise econômica doméstica da história no país, que ceifaria milhões de empregos.

Atualmente, ela é palestrante e viaja o mundo como porta-voz da campanha “I Belong”, da ONU, para conscientizar o planeta acerca dos mais de 10 milhões de pessoas apátridas que aguardam pelo direito a uma aparentemente óbvia nacionalidade, mas que a realidade mostra ser um desafio de um inestimável direito.

“Meu trabalho hoje é levar o nome do Brasil para o mundo inteiro. E a gente conseguir aplicar a lei brasileira – de refúgio e reconhecimento de apátridas como nacionais – em todos os outros países.