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A história da humanidade não para: entrevista com Luiz Felipe Pondé, filósofo

De Luiz Felipe Pondé, filósofo e um dos mais atuantes pensadores brasileiros:

“A espécie humana tem 250 mil anos, a gente já passou por situações terríveis, e essa tendência de achar que o mundo vai acabar me parece que tem muito a ver com o narcisismo contemporâneo, de achar que nós estamos vivendo tudo pela primeira vez. E na pandemia isso foi claro”.
E vai além:

“Dentro da história das pandemias, essa é a mais feliz de todas. É claro que para todo mundo que morreu é uma perda absoluta e uma catástrofe. Mas do ponto de vista histórico comparativo, de todas as calamidades pandêmicas e epidêmicas, essa é a mais segura, a mais feliz, a mais organizada e, provavelmente, vamos sair mais rápido dela.”

A perspectiva histórica que Pondé impõe sobre as coisas, resulta num referencial poderoso durante toda a entrevista ao “Pensando o Brasil com Adalberto Piotto”, pela TV CIEE, que começou com a pergunta sobre os incêndios em igrejas no Chile e ações de radicalismo religioso, como o recente assassinato de um professor francês por um radical que se identificou como islâmico.

“Eu não tenho dúvida que o mundo avança tecnicamente. Até agora, ele avançou. Mas não há nenhuma garantia que, daqui a mil anos, estejamos vivendo desse jeito. Não há nenhuma garantia que, daqui a 300 anos, a gente vá ter o mesmo tipo de valores circulando. A humanidade tem sido mais religiosa mais tempo do que não. Uma visão não religiosa secular aconteceu semana passada na história da humanidade. Nós somos uma espécie pré-histórica perdida no shopping center, perdida no parlamento”.

E como lidar com o imenso volume de informação que se tornou presente em nossas vidas devido justamente a um avanço, um maior acesso à tecnologia acessível? Apesar dos ganhos de acesso à conteúdos, Pondé não tarda a falar sobre a polarização política e como temos lidado com os novos meios de debate trazidos pela internet:

“Do ponto de vista da emissão de conteúdo, não há dúvida que isso pode fazer mal. Isso pode gerar saturação, banalização e violência como está gerando. A democracia liberal está passando por uma pressão muito grande, do ponto de vista dessa polarização infernal que a redes sociais causam. Porque as pessoas quando discutem política sempre vão pro pau. A ideia de que as pessoas discutem política, no dia a dia, pra serem um eleitor crítico é quase um fetiche”.

Fazendo uso de imensa cultura analítica, Pondé ainda fala sobre o comportamento humano das novas gerações “cozidas no Facebook e no Instagram”, da lacração, da quase ausência de sensatez no uso de espaço público virtual, do jornalismo editado pelo Twitter, das empresas sob imenso escrutínio das mesmas redes sociais, de marketing digital, de pautas identitárias e, por fim, que a história da humanidade não para.