Experiência não é tudo na hora da contratação

10 de outubro de 2018
Espírito inovador, velocidade e entusiasmo são características valorizadas pelas startups na hora de contratar seu time

 

As startups crescem rapidamente em todo o mundo. No Brasil, já são 6 mil negócios formais desse tipo – o número é 58% maior do que o registrado em 2012 pela Associação Brasileira de Startups (ABStartups). Para se ter ideia do potencial, no começo deste ano, o aplicativo de transporte 99, atualmente controlado pela chinesa DiDi Chuxing, se tornou o primeiro unicórnio brasileiro – termo utilizado para denominar startups avaliadas em US$ 1 bilhão ou mais.

Geralmente focadas em soluções para a vida e as cidades, as startups contam com bases enxutas e processos desburocratizados. Atraem os jovens para os seus escritórios modernos justamente por oferecerem produtos inovadores, ambientes criativos e gestão horizontal. Os estagiários entram para os times a partir de contratos simplificados de até dois anos, tempo suficiente para adquirirem experiência e contribuírem para o crescimento do negócio. Além da agilidade de contratação, o pequeno empreendedor tem a oportunidade de agregar à equipe jovens com grande conhecimento teórico, ideias novas e determinação. Para os negócios, os estagiários representam baixo impacto financeiro.

Algumas startups experimentam o sucesso dessa parceria. É o caso da paulistana Soul Urbanismo, que projeta e implanta parklets – pequenas áreas de lazer – em calçadas. Com dez colaboradores e quatro anos de atividade, a empresa já contratou um funcionário recém-formado via Instagram e uma nova estagiária a partir do contato feito pelo Facebook. Tudo isso por intermédio de um processo de seleção personalizado pelo Centro de Integração Empresa- -Escola (CIEE).

Augusto Aielo é CEO e fundador da Soul, mas prefere ser chamado de “faz-tudo”. Ele diz que as startups são excelentes portas de entrada para os estagiários. Com estrutura reduzida, distribuem mais responsabilidades aos iniciantes do que as grandes organizações. “Tem de ser realmente parte da equipe, senão não vale a pena”, afirma. O único pedido que Aielo fez ao CIEE, na hora de criar o processo seletivo, foi descartar os currículos dos candidatos. “Nesse caso, experiência não importava. Estávamos interessados em habilidades e comportamentos, não nos currículos. Tanto que a estagiária que escolhemos nunca tinha estagiado antes. Ela se destacou por conseguir trabalhar em equipe sem impor somente as próprias vontades e, ao mesmo tempo, se posicionar de forma correta. A Beatriz tem tudo a ver com a gente e está voando”, conta.

A startup Coddera, que atua no segmento de softwares e soluções corporativas personalizadas, também contou com o CIEE para desenvolver um processo seletivo personalizado. “O CIEE vive uma nova fase, mais dinâmica e moderna, e vem se adaptando às mudanças do mercado”, explica Cristiana Mango, supervisora de Planejamento e Inteligência de Mercado da entidade.

Durante a Expo CIEE 2018, maior feira estudantil da América Latina, os recrutadores avaliaram 50 candidatos. Os jovens, estudantes de ciências da computação, foram desafiados a participar de um hackathon, maratona de programação que tem o objetivo de criar um novo aplicativo, software ou hardware. Uma vaga de estágio estava em jogo, mas a Coddera saiu de lá com mais dois, tamanho o sucesso da seleção.

Recrutamento Moderno

Para selecionar jovens talentos é preciso levar em conta diversos aspectos que extrapolam a prova escrita. Veja como a Soul Urbanismo, em parceria com o CIEE, contratou sua nova estagiária.

> O CIEE lançou a primeira rodada de seleção no Facebook. Foram 328 inscritos em um dia. Entre os critérios: nenhuma experiência.

> A peneira avaliou a capacidade de comunicação e desenvoltura dos candidatos. Eles tiveram que produzir e enviar, no prazo de 24 horas, um vídeo sobre si mesmos.

> Depois, para a dinâmica presencial, realizada no escritório da Soul Urbanismo, 13 finalistas tiveram de preencher suas mochilas com objetos que respondessem à pergunta: “O que você levaria daqui para a frente?”. Essa fase avaliou o senso de prioridade e a personalidade dos jovens.

> Os concorrentes tiveram então que desenvolver, em uma hora, um projeto de parklet interativo. O escopo foi alterado completamente meia hora antes do fim do prazo, tudo para testar a capacidade de adaptação a mudanças dos aspirantes à vaga, uma realidade nas startups. A vencedora foi anunciada na Reality Experience. O evento, focado em estágio em startups, reuniu empresários e estudantes no auditório do CIEE, em São Paulo, no último mês de agosto.     

 

 

Matéria publicada originalmente no jornal O Estado de S.Paulo em 28 de setembro de 2018.