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Mãos da amizade. Pilha de mãos diferentes dos povos, amigos ou conceito na moda da equipe

Vínculos fortalecidos para um novo tempo

9 de fevereiro de 2021

O ano de 2020 não foi fácil para ninguém; crise sanitária, econômica, política. Todas/os precisando reinventar seus cotidianos e nos Espaços de Cidadania do CIEE a situação não foi diferente. Mas a coletividade, o acolhimento, as trocas e construções conjuntas de estratégias para superar os desafios e angústias permitiram que conviventes, jovens, familiares, profissionais e toda comunidade dos Espaços terminassem o ano realizadas/os, com a sensação de missão cumprida e cheias/os de agradecimentos e vitalidade para seguirem em suas trajetórias de vida e contribuição para construção de um mundo mais justo e digno de ser vivido. 

Em execução desde 2018, os Espaços de Cidadania do CIEE, que se propõem a executar os Serviços de Convivência e Fortalecimento de Vínculos – SCFV previstos na Política Nacional de Assistência Social, já atenderam mais de 2.500 pessoas, em sua grande maioria jovens dos territórios de Ceilândia e Taguatinga, no Distrito Federal (desde 2018); da região central de São Paulo e do bairro do Grajaú, no extremo sul da capital paulista (2018); e das regiões centrais de Manaus/AM e Salvador/BA (2019). 

Os Espaços desenvolvem os SCFVs para  jovens de 15 a 17 anos que convivem de segunda a quinta-feira, por três horas, no contraturno escolar. Eles participam de rodas de conversa, oficinas de arte e cultura, visitas à cidade, palestras e dinâmicas, momentos de acolhimento, respeito, proteção, trocas de experiências e reflexões relacionadas às suas vidas pessoais, familiares, comunitárias e sociais. Assuntos relacionados aos Direitos Humanos, Cidadania, Mundo do Trabalho, Futuro do Mundo, Preconceitos e Protagonismo Juvenil estão sempre presentes.

Em fase de implantação, a proposta era, em 2020, inaugurar um Espaço em Campinas/SP, mas, com a pandemia e a necessidade dos distanciamentos sociais e redução dos deslocamentos, foi preciso replanejar todas as ações e investir energia e recursos para dar conta das novas demandas. 

Tudo foi muito rápido, de um dia para outro as pessoas pararam de circular, de frequentar seus trabalhos, suas escolas, seus locais de convivência, cuidados, lazer e diversão. Os confinamentos muitas vezes eram difíceis de serem realizados. Quem traria o alimento para casa? Muitas casas não têm condições de acolher todos os seus moradores de modo a permitir momentos de privacidade, descanso, produção e estudos. As tensões relacionais da convivência diária se amplificaram e os momentos de relaxamento reduziram significativamente.

Acostumadas a receber as/os conviventes com abraços, trocas de olhares, diálogos e observações de gestos e posturas que permitiam perceber as emocionalidades que com simples toques e contatos (mesmo que visuais) acolhiam e/ou dissipavam algumas preocupações ou aproximavam para uma conversa mais profunda, as equipes dos Espaços de Cidadania se viram impossibilitadas deste fazer cotidiano e convocadas a operar em um fazer que não tinham conhecimento, nem prática: o uso das tecnologias digitais de comunicação.

O início foi, no mínimo, assustador e gerador de muitas angústias; os conviventes estavam distantes, muitas vezes vivenciando situações de violação de direitos: fome; violência física, sexual e psicológica; impossibilitados de acessar as políticas públicas de saúde, educação, trabalho, assistência social e cultura. Os grupos de WhatsApp, que até então eram utilizados para avisos, passaram a ser a possibilidade de alguma convivência e troca. Os telefones dos profissionais dos Espaços começaram a tocar nos horários mais inconvenientes com jovens e familiares sofrendo, pedindo ajuda para colocar comida dentro de casa, socorrer a si ou a um parente em tentativa de suicídio ou violência doméstica ou sofrimento psíquico… Em algumas graves situações, os contatos eram perdidos e a angústia de não saber como a pessoa estava era desesperadora.

As preocupações com o vírus e como se proteger dele também se fizeram constantes. Como adquirir álcool em gel, máscara, comida? Antes do governo federal iniciar o auxílio emergencial, o CIEE se viu na obrigação ética e humanitária de disponibilizar cestas básicas a quem dos Espaços ou comunidade necessitasse. Foram disponibilizadas 1.407 cestas básicas no decorrer de 2020 só para as comunidades dos Espaços de Cidadania.

Com o início das aulas virtuais, muitas/os jovens ficaram sem possibilidades de participação, pois não tinham equipamentos e acesso à internet; o CIEE, rapidamente, também providenciou a distribuição de 67 celulares e 278 chips para acessos aos conviventes que precisaram.

Assim, as/os profissionais dos Espaços também passaram a realizar encontros virtuais com as/os jovens, em grupos,  com duração de 2 horas, duas vezes por semana, o que também gerou grande ansiedade na equipe, que precisou se reinventar e mobilizar novas formas de contato e trabalho com as/os conviventes.

Em alguns momentos tudo era tão novo e desafiador que a vontade era parar, mas as demandas urgentes da população assistida não permitiam descanso. Os encaminhamentos para conquista de direitos subiram sobremaneira: em 2020, foram 2.307 encaminhamentos, em sua maioria para acesso a benefícios sociais e rede de proteção à criança e ao adolescente. 

Mas como em tudo também é possível ver um lado bom, as equipes dos Espaços ficaram ainda mais unidas e transversais; além dos profissionais iniciarem um curso de especialização, realizado pela UNIFESP, de Metodologias Participativas para Construção de uma Educação em Direitos Humanos, em conjunto com outros profissionais do CIEE de praticamente todo o território nacional, a necessidade de pensar novas estratégias e possibilidade da participação de pessoas dos mais diversos lugares nos encontros virtuais permitiu que a equipe trocasse muito mais experiências, inclusive, convidando especialistas para tratarem dos assuntos mais mobilizadores. Foi possível ainda que, profissionais visitassem os grupos de jovens uns dos outros para vivenciarem outras experiências e trocarem mais saberes.

As/os jovens também aproveitaram a oportunidade da vida virtual e passaram a realizar encontros interestaduais, chegando a constituir uma Comissão da Juventude do CIEE que organizou um encontro virtual com a participação de mais de 1.000 pessoas, denominado “O ECA sob a perspectiva dos adolescentes”; essa comissão pelo visto veio para ficar! Vários outros projetos transversais já estão sendo planejados: ENEM, Intercâmbio Literário, entre outros. 

Por fim, no final do ano, nas rodas de fechamento de ciclo com jovens, familiares e profissionais da rede, os retornos de agradecimentos e relatos do quanto os Espaços foram fundamentais e muitas vezes o único ponto de apoio que tiveram, foram gratificantes e valeu cada esforço para a garantia dos direitos não só à convivência protetiva, afetiva e emancipatória, mas à sobrevivência saudável física e psicológica.

Uma parceria com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo também foi firmada em 2020 para atender as/os jovens e estimular a prática das Oficinas de Cri@tividades, também desenvolvidas pela Gerência de Projetos Sociais do CIEE e inspiradas no Programa Nacional de Promoção do Acesso ao Mundo do Trabalho – Acessuas Trabalho, entre profissionais da assistência social de São Paulo. Nosso objetivo é formar cada vez mais multiplicadores de ações que contribuam para a emancipação da juventude.

E que 2021 venha com mais saúde, garantia de direitos e dignidade para todas e todos!!

Luana Bottini, Gerente de Projetos Sociais do CIEE


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