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Tecnologia, polarização e formação profissional

28 de abril de 2021

José Pastore ¹

Impacto das tecnologias na polarização social 

Os Estados Unidos têm sido fortemente marcados por uma grande destruição de empregos de classe média. As novas tecnologias substituem os escalões intermediários e promovem um pequeno grupo de profissionais para o topo e empurra um grande grupo para a base da pirâmide social. Mais gente desce do que sobe na escala social. 

A automação é responsável por 50% dessa queda. ² É uma verdadeira inversão da alta mobilidade social ascendente que sempre marcou o país do “American Dream”.

O movimento de descida na escala social tem muitas repercussões. Psicologicamente, gera desilusão e frustração para quem perde status social. Politicamente, leva os eleitores a apoiar candidatos populistas que dramatizam o enxugamento da classe média e prometem uma rápida reversão desse quadro. 

Em 2016, Donald Trump percebeu bem a desilusão de milhões de americanos de classe média que perderam suas casas na crise de 2008-10 e, em seguida, perderam seus empregos com a rápida automação das fábricas e dos escritórios.  Moto contínuo pôs a culpa nas políticas econômicas de Barack Obama que permitiram a migração massiva de empresas dos Estados Unidos para a China. Vou reduzir os impostos da pessoa jurídica para trazer as empresas americanas de volta para os Estados Unidos e aqui gerar uma grande quantidade de empregos com bons salários. America First”. 

A promessa agradou em cheio a classe média que estava cada vez mais espremida, endividada, sem emprego e sem renda.  Era tudo o que os movimentos sociais pregavam como, por exemplo, o Occupy Wall Street que protestava contra a profunda desigualdade social com o slogan “nós somos os 99% excluídos que não vão mais tolerar a ganância e a corrupção do 1%”. 

Trump conseguiu ganhar a eleição e fez a grande redução de impostos que prometera. Quando Obama tomou posse (2009) o desemprego estava em 10% e no final do mandato Trump (2019-início de 2020) baixou para 3%. ³ Entretanto, os salários continuaram baixos porque houve uma grande redução de empregos de salários médios em decorrência da substituição de trabalho por robôs, inteligência artificial, impressoras 3D e outras tecnologias. 

Sob esse impacto, alguns profissionais saíram das profissões de classe média e entraram nas profissões tecnológicas sofisticadas de altos salários, mas foi a minoria. A maioria desceu na escala social. O profissional de classe média que era gerente de almoxarifado de um grande supermercado, por exemplo, perdeu o seu emprego quando os processos de inteligência artificial foram instalados nos sistemas de caixas das empresas para registrar automaticamente os produtos vendidos e emitir os pedidos aos fornecedores para reposições no estoque. Sem condições de migrar para uma profissão de altos salários do mundo tecnológico, sobrou para ele trabalhar como taxista, motorista de Uber ou zelador de prédios com status e salários muito mais baixos. 

É dessa forma que surgiu e se consolidou uma grande polarização no mercado de trabalho onde alguns sobem e muitos descem na estrutura de classes sociais. 

Essas fontes de desilusão não desapareceram ao tempo de Donald Trump. Uma enorme massa de eleitores que desceram na escala social continuou na ilusão de que era preciso dar mais tempo para Trump resolver o problema. Mais de 74 milhões de americanos votaram nele em 2020. Os eleitores não perceberam que a causa principal da sua descensão social foi a entrada maciça de tecnologias que substituíram a mão de obra de classe média. 

Joe Biden terá de trabalhar no mesmo caldo de cultura política. E, se não conseguir restaurar a mobilidade social ascendente que sempre foi o sonho dos americanos, terá de disputar novamente com Trump em 2024 – se este continuar livre e com os mesmos direitos políticos.

O quadro descrito é muito evidente nos Estados Unidos, mas, está presente também em muitos países da Europa onde afloraram muitos candidatos e governos populistas que prometem a restauração dos bons empregos de classe média como Marine Le Pen (França), Alexis Tsipras (Grécia), Viktor Orban (Hungria), Recep Erdoğan (Turquia) e Vladimir Putin (Rússia). 

Polarização e formação profissional

Qual será o quadro no Brasil? O que fazer? Como criar bons empregos quando os robôs competem com os trabalhadores? Como atenuar o impacto da polarização?

Devido aos estragos da pandemia e da má qualidade da educação no Brasil, os jovens chegarão ao mercado de trabalho com seu potencial reduzido para atuar num mundo em que as empresas exigirão profissionais com diversas habilidades no campo tecnológico e, sobretudo, com uma boa capacidade de pensar. 

A capacidade de pensar depende fundamentalmente de uma educação de boa qualidade nas matérias básicas: português, matemática e ciências. A linguagem é a ferramenta do pensamento: nós pensamos com as palavras. Quem domina bem o significado das palavras tem mais chance de aprender. Por meio da matemática, desenvolvemos a lógica de raciocínio que é crucial para resolver problemas. As ciências básicas nos fazem entender como os processos se desenvolvem. 

Quando se fala em formação profissional de boa qualidade, fala-se em atividades que transmitem os princípios teóricos e conceituais das profissões. Com uma base teórica sólida o mecânico bem formado consegue absorver e incorporar as novas tecnologias que ocorrem na sua área de conhecimentos. Uma boa formação profissional aumenta a possibilidade das pessoas aprenderem novas tecnologias e gradualmente migrarem para profissões próximas da sua e que remuneram melhor. Para tanto, a capacitação teórica e conceitual do profissional é crucial. 

Fala-se muito que a maioria das profissões dos próximos anos será desconhecida pelos trabalhadores atuais. Isso não significa que os cursos de formação profissional tenham de dominar e ensinar todos os detalhes das novas profissões. Eles precisam garantir uma boa base teórica e conceitual aos profissionais para que eles possam estudar mais, entender e usar o novo. Como diz Moura Castro: “Se a formação teórica e conceitual é sólida, o resto vem com facilidade”.  

Nesse contexto, não tem sentido dizer que a metade dos trabalhadores se tornará obsoleta devido à entrada de novas tecnologias. Quem sabe lidar com os conceitos básicos tem condições de fazer os ajustes necessários. Igualmente, quando se fala em requalificação o que se busca é ajudar os profissionais a fazerem a travessia entre o velho e o novo usando a base teórica e conceitual que aprenderam. Sempre foi assim. O técnico em eletrônica não deixou de ser técnico em eletrônica quando os rádios evoluíram do sistema de válvulas para o de transistores. Os que tinham boa base conceitual fizeram essa travessia com pequena ajuda. Isso vale para qualquer profissão. Todas estão assentadas em conceitos genéricos que são básicos. Quanto melhor o domínio desses conceitos, melhor será a capacidade de absorção de novos e maior a possibilidade de continuarem em profissões do mesmo status social ou até subirem. Por exemplo, um contador pode passar para a atividade de pesquisador de mercado ou administrador de bancos de dados que lhe assegura renda e um status próximo do que tinha ou até superior. 

Mas nem todos têm esse destino. Há casos em que, ao perder o emprego, um garçom, por exemplo, seja levado a trabalhar em outra área – como motorista de Uber ou entregador de comida, por exemplo. Isso ocorre com um bom número de pessoas, mas não constitui a maioria. 

Em um estudo que acompanhou as mudanças em cerca de 800 profissões diferentes realizado na China, França, Alemanha, Índia, Japão, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos, estimou-se que 107 milhões de pessoas terão de mudar de profissão e de área até 2030. Os serviços de vendas e de atendimento aos clientes, por exemplo, serão substituídos por inteligência artificial (secretária eletrônica, sites, etc.). Os profissionais dessas áreas terão de migrar para outras áreas, correlatas ou não. Tais mudanças serão mais necessárias para os que trabalham em profissões rotineiras de baixos salários. As mulheres e as minorias (imigrantes) serão as mais atingidas. Na outra ponta, poucos serão os profissionais de alto salário que terão de mudar de profissão ou de área.   

Os que terão de mudar de profissão e de área terão de aprender novas habilidades. Se essas pessoas tiverem um bom domínio da linguagem e da lógica, a sua requalificação será facilitada. Caso contrário, a transição será demorada e sofrida. 

As competências cognitivas continuarão sendo demandadas em várias profissões de alto salário nas mais diversas áreas: TI, programação, engenharia, pesquisa, estatística, criatividade, pensamento crítico, interpretação de informações, administração de pessoas, etc. A demanda por competências sócio emocionais também aumentará, como é o caso de capacidade de trabalhar em equipe, facilidade de comunicação, respeito humano, empatia, iniciativa, liderança, capacidade negocial, tolerância, etc. As escolas de formação profissional terão de enfatizar essa dimensão, lembrando que os valores sociais são transmitidos mais pelos exemplos do que pelas explicações. Ajudar as pessoas na transição é um grande desafio para as empresas e para as escolas. 

O que tem sido feito

A história mostra que investir em requalificação promove os trabalhadores e dá lucro para as empresas. No exterior, muitas empresas implementam sistemas de requalificação continuada para os seus empregados: IBM, Bosch, Barclay, Merck, Nike, Google, Hilton Hotels, Ernst & Young e outras, em geral, por meio de universidades corporativas e em parceria com escolas acadêmicas e profissionais. Em novembro de 2020 a Comissão Europeia criou o “Pacto para Habilitação” para ajudar a reduzir os hiatos entre oferta e demanda de pessoal no setor automobilístico. Para tanto, alocou 7 bilhões de euros para requalificar 700 mil trabalhadores. 

Requalificar trabalhadores depois de desempregados tende a ser tarde demais. Daí a importância da qualificação continuada ao longo das carreiras profissionais. 

Em pesquisa realizada com líderes empresariais, CEOs, estrategistas e profissionais de recursos humanos de 15 setores e ramos de atividade em 26 países avançados e emergentes, os empresários informaram que, em média, 40% dos atuais empregados precisam de urgente requalificação. Os mais preocupados com essa defasagem são os dos setores do comércio e dos serviços, incluindo-se aqui os ramos da saúde e finanças. O relatório cita vários programas que foram desenhados para esse fim. A empresa AT & T, por exemplo, implementa 50 projetos de requalificação com investimentos de US$ 200 milhões. A Shell leva avante um ambicioso programa de requalificação no campo da inteligência artificial. O Fórum Econômico Mundial indica, em resumo, que governos de 100 países vêm expandindo e facilitando o uso de plataformas digitais para requalificação presencial e à distância.  

É claro que o problema das desigualdades sociais geradas pela entrada de tecnologias nas profissões de classe média – a polarização – não será resolvido apenas pela via da requalificação. Afinal, as empresas não vão parar de se modernizar devido à polarização. Mas, os programas de requalificação constituem uma estratégia comprovada para tornar os trabalhadores mais aptos a acompanhar as inovações tecnológicas e, por meio dela, manterem-se ativos no mercado de trabalho. É incrível como um problema tão complexo como esse (polarização) pode ser atenuado por meio da requalificação profissional. Ao facilitar o ajuste dos trabalhadores, atenua-se o sentimento de desilusão e a busca de líderes populistas que mais agravam do que resolvem os problemas. Até o momento não se conhece outro caminho.  

Na saída da pandemia, as parcerias entre empresas e escolas terão de se multiplicar, pois, um bom número de empregados necessitará de retreinamento e ampliação de conhecimentos em face de mudanças no ambiente de trabalho adotadas pelas empresas em decorrência da própria Covid-19. Muitas empresas já perceberam essa necessidade e vêm ampliando essas parcerias. Em artigo assinado, três empresários de referência no setor industrial clamam pela necessidade de acelerar o ciclo de inovações tecnológicas e de preparação dos profissionais brasileiros. Essa providência precisa ser levada a sério no pós-pandemia, dizem eles, porque “o Brasil nunca se prepara devidamente e em tempo para enfrentar os problemas anunciados”.     

Algumas empresas brasileiras já possuem programas de requalificação permanentes há muito tempo. Cito como exemplos a Embraer, a Embrapa e vários bancos. Em Santa Catarina, 260 empresas trabalham há vários anos em estreita parceria com o SESI, SESC, SENAI e SENAC na qualificação e requalificação dos seus empregados.  

Conclusão

O Brasil não está a zero no campo da formação profissional. Ao contrário, as escolas do SENAI para o setor industrial e do SENAC para o setor terciário têm reconhecimento internacional. Isso é de extrema importância para facilitar o ajuste dos trabalhadores às novas tecnologias e métodos de produção. 

No setor terciário, vários estados do Brasil mantêm programas de parceria no âmbito do SESC e do SENAC para as mais variadas profissões do comércio, serviços e turismo. ¹⁰ O SESC atende os profissionais e seus familiares com ações nas áreas da educação, saúde, cultura, lazer e assistência. Muitas de suas ações se destinam ao público em geral por meio de escolas, consultórios médicos e odontológicos, restaurantes, bibliotecas, centros culturais, ginásios e quadras de esporte, hotéis, pousadas e vários outros equipamentos sociais. O SENAC oferece cursos e serviços para jovens e adultos para atender as necessidades das próprias pessoas e das empresas do comércio, serviços e turismo. São inúmeras as parcerias de qualificação e requalificação existentes entre o SENAC e os hospitais, supermercados, hotéis, restaurantes, empresas de turismo, do setor financeiro e outras. ¹¹ Em todos esses casos há um esforço de acompanhar as inovações tecnológicas. 

Essa é uma grande vantagem do sistema brasileiro de formação profissional onde as escolas trabalham em íntima interface com as empresas que sinalizam o tipo de demanda presente e futura no campo da formação profissional em face das mudanças tecnológicas. Inúmeras pesquisas indicam que egressos de escolas profissionais têm maior facilidade para se empregar, acompanhar as mudanças e crescer na carreira. ¹² É uma maneira de atenuar o impacto da polarização. 

Em termos de política de qualificação e requalificação profissional é recomendável que se amplie a rede de escolas do SENAC e do SENAI e que se estreite cada vez mais o entrosamento entre os empresários e os professores de modo a aumentar a objetividade na formação dos jovens e adultos. Com isso garante-se que as instituições de ensino também apreendam à luz da sensibilidade dos empresários na adoção de novas tecnologias. Eles são os melhores sensores das tecnologias que estão entrando e que vão entrar no sistema produtivo. Afinal, a Revolução 5.0 está na esquina.

Essa é a única forma até então visualizada para atenuar os impactos do desemprego tecnológicos e da polarização que tomam conta do mercado de trabalho em vários países, inclusive Brasil. Sem isso, a polarização se torna brutal.

¹ Professor da Universidade de São Paulo e Consultor da CNC – Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. E-mail: j.pastore@uol.com.br; Site: www.josepastore.com.br. Este artigo expressa apenas as ideias do autor e não da CNC e foi inicialmente divulgado entre os Presidentes das Federações do Comércio do Brasil e diretores das entidades de promoção social e formação profissional do comércio (SESC e SENAC).

² Itay Saporta-Eksten, “The macroeconomics of automation: data, theory, and policy analysis”, Bonn: Institute of Labor Economics, 2020.

³ Na verdade, o desemprego já havia baixado para 6% no final do mandato de Barack Obama e se mantido assim até o início de 2020 quando explodiu devido a Covid-10 – o que teve peso na derrota de Trump.

Claudio de Moura Castro, “A educação do futuro e o futuro da educação”, Revista da Escola de propaganda e Marketing, Vol. 25, nº 3, 2019.

Susan Lund e colaboradores, “The future of work after Covid-19”, Washington: McKinsey, 2021.

WEF “The future of jobs report 2020”, Genebra: World Economic Forum, 2020.

Exemplos de empresas que estão preparando novos empregados para a retomada dos negócios: Klabin, Mahle Metal Leve, Petrobras, Vale, Grupo Petrópolis (Cerveja Itaipava), Ball Corporation e outras.

Horácio Lafer Piva, Pedro Passos, Pedro Wongtschowski, “A hora da educação profissional”, Valor, 19/02/2021.

Movimento Santa Catarina pela educação, www.santacatarina pela educação.com.br.

¹⁰ CNC, SESC e SENAC, Sesc e Senac | CNC.

¹¹ Para mais exemplos dessas parcerias ver, “70 anos de parceria com empresas do comércio”, Revista do SENAC, Ano 66, no. 733, 2016, Senac Jan_e_Fev_2016.pdf; “Parcerias nacionais”, Senac São Paulo – Cursos Livres, Técnicos, Graduação e Pós-graduação; “Cooperação internacional”, Senac São Paulo – Cursos Livres, Técnicos, Graduação e Pós-graduação.

¹² “Transição da escola para o trabalho”, Rio de Janeiro: Dados Consultoria, 2020.