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O capital humano depois da pandemia

28 de abril de 2021

José Pastore ¹

O Brasil possui um problema crônico ligado à baixa qualidade da educação que é oferecida à maioria dos brasileiros. Com a paralisação de grande parte das escolas durante a pandemia, o problema se agravou. O ensino remoto vem sendo utilizado pela minoria das crianças e com uma eficácia bastante questionável. Isso vale também para os adolescentes que têm mais acesso às aulas on line. 

Em um estudo recente do Banco Mundial referente à América Latina e Caribe verificou-se que dois terços dos alunos que ficaram sem aulas presenciais não conseguem ler ou entender um texto que seja próprio da sua idade. ² A situação que já era ruim, ³ ficou pior com a pandemia com graves reflexos para o restante da vida das crianças e adolescentes. A menor capacidade de leitura e entendimento reduz inescapavelmente a capacidade de pensar dessas pessoas, pois, como se sabe, a linguagem é a ferramenta do pensamento humano. Nós pensamos com as palavras.

Segundo as pesquisas do Banco Mundial, as perdas de aprendizagem na América Latina e Caribe devem ter atingido cerca de 70% das crianças e adolescentes que estavam nas escolas. Na estimativa de Ricardo Paes de Barros, o nível de aprendizagem no ensino fundamental e médio durante a Covid-19 em 2020 esteve próximo de zero.  

A redução da capacidade cognitiva das crianças e adolescentes terá consequências para o resto de suas vidas. O Banco Mundial estima que a evasão escolar aumentará 15% na América Latina e Caribe, em média. No Brasil, estima-se que só a evasão escolar do ensino médio provoca perda de US$ 40 bilhões por ano, o que daria cerca de US$ 1,2 trilhão durante uma vida profissional de 30 anos.  

Durante a paralisação das aulas, muitos alunos saem de escolas particulares de melhor nível e passam a cursar escolas públicas de má qualidade. Eles terão dificuldades ainda maiores para conseguir empregos, ficarão com salários mais baixos por muito tempo, estarão mais sujeitos à rotatividade, farão pouca ascensão social. Na realidade, muitos farão o caminho inverso, ficando em situações piores do que a de seus pais – é a mobilidade social descendente. 

O hiato de aprendizagem produzirá às crianças e adolescentes uma dificuldade adicional para adquirir conhecimentos sobre novas tecnologias e novas formas de trabalhar que estão entrando em todos os setores da economia. Os países que ficaram sem escola presencial por dez meses, terão, em média, uma perda de 1,3 anos escolares. Para treze meses de inatividade, estima-se uma perda de 1,7 anos escolares. Esses alunos estarão bem abaixo do mínimo de proficiência nos testes do PISA. As estimativas do Banco Mundial indicam que, em média, os países da América Latina e Caribe perderão 88% da aprendizagem devido ao fechamento das escolas. No Brasil, a perda deve ficar em torno de 70%.   

O Índice de Capital Humano (ICH) criado pelo Banco Mundial em 2018 combina educação e saúde. Antes da pandemia, a força de trabalho da América Latina era 56% produtiva em função de suas condições de educação e saúde. No Brasil, o ICH estava em 55% em 2018. A pandemia afetou severamente a educação (fundamental, média e superior) e a saúde (física e mental), o que deve ter reduzido ainda mais o ICH. Estima-se que, no caso do Brasil, o ICH caiu para 50%.  

Trata-se de um quadro de rápida deterioração de um capital humano que ainda estava em formação. Isso tem reflexos também na economia dos países. Trabalhadores mais limitados na capacidade cognitiva têm baixa produtividade, o que compromete a competitividade das empresas e o crescimento do país. Na tentativa de quantificar esse desastre na aprendizagem, o Banco Mundial estima uma perda agregada de US$ 1,7 trilhão nos salários dos trabalhadores da América Latina e no Caribe no curto prazo.     

Ao analisar as consequências de longo prazo das perdas de dias letivos em 157 países, os pesquisadores mostram que ao entrar no mercado de trabalho, cada jovem terá uma redução no salário em torno de US$ 1.400 por ano e cerca de US$ 25 mil na sua vida profissional, em média. Considerando que em 2020 1,5 bilhão de estudantes ficaram sem aulas, as perdas agregadas chegarão à devastadora cifra de US$ 15 trilhões. É claro que essa perda se reflete nas futuras famílias desses jovens. E, como elas afetam mais os alunos pobres do que os ricos, espera-se um aprofundamento rápido da desigualdade em decorrência da paralisia escolar.

Em face do que considera uma grande tragédia, os pesquisadores do Banco Mundial insistem que os países deveriam traçar desde já uma estratégia para a recuperação dessas perdas. Para tanto, arrolam uma série de sugestões que parecem apropriadas para o caso brasileiro.

  1. É imperiosa a reabertura das escolas e a retomada do ensino presencial no menor tempo possível. Na medida do possível, será necessário montar um programa de reposição para mitigar as consequências da aprendizagem perdida.  
  2. É urgente um aperfeiçoamento das técnicas do ensino remoto. Este não pode se limitar a um professor fazendo da frente de uma câmera o que normalmente faz na sala de aula. Os responsáveis pela educação (Ministério, Secretarias, escolas) terão de preparar materiais adequados para esse tipo de ensino, com apresentações menos cansativas, mais curtas e baseadas em roteiros previamente testados. Tomem como referência, o que é feito nos telecursos das emissoras de TV. 
  3. É necessário preparar os professores para lecionarem em sistemas mistos que envolvem trabalho presencial e trabalho remoto. Tais sistemas têm tudo para serem os novos normais depois da pandemia.  
  4. É importante que medidas de proteção social sejam destinadas com prioridade às famílias que têm muitas crianças, em especial, as que tiveram grandes perdas de aprendizagem. 
  5. A recuperação das perdas de aprendizagem exigirá adaptações de currículos e de métodos de avaliação assim como requalificação rápida de professores e diretores de escolas para melhor utilizar os métodos pedagógicos modernos, em especial, os digitais. 
  6. A recuperação das perdas de aprendizagem exigirá um aumento de horas de ensino, muita assistência individual (mentorias) e atenção especial aos estudantes mais vulneráveis nos campos da nutrição e da saúde.
  7. Para os governos, não há como evitar a aprovação de recursos públicos para, com eficiência, implementar as necessárias providências e mobilizar pessoas e empresas para colaborar na recuperação das perdas de capital humano determinadas pela pandemia.  
  8. Ênfase total nos conhecimentos básicos (linguagem, matemática e ciências). Ensinar menos para apreender mais.  
  9. Em face da diversidade das várias regiões do Brasil, a solução única não é recomendada. Ao contrário, os remédios terão de ser ajustados às características dos doentes. A produção de material didático para os alunos e para a própria requalificação dos professores terá de levar em conta as diferenças regionais. 

A sociedade precisa entender que a Covid-19 causou a maior crise na área da educação em todos os países, em especial, nos emergentes que já apresentavam graves falhas de qualidade das escolas. Espera-se que essa crise crie oportunidades para inovações e melhoria da eficiência dos sistemas educacionais. A recuperação da aprendizagem é a grande campanha a ser implementada para preservar o pouco capital humano que os países da América Latina e Caribe ainda retêm.  

Implicações para a formação profissional

É claro que essa perda de capital humano afetará os programas de formação profissional na América Latina e Caribe como um todo e no Brasil em particular.

Os programas de formação profissional terão de investir ainda mais do que investem no preenchimento das falhas educacionais que os jovens trazem dos cursos fundamental e médio. No caso do SENAC, é bem provável que a instituição venha a ser chamada para ajudar especificamente nas tarefas de requalificação de professores e melhoria da capacidade de uso das modernas técnicas tecnológicas no campo da educação. Além disso, é recomendada a expansão de programas focados em novos negócios com o uso de novas tecnologias.   

O fato de as escolas do SENAC serem administradas pelos empresários do comércio de bens, serviços e turismo ajuda bastante no envolvimento das empresas na cruzada de recuperação das perdas de capital humano causadas pelo Covid-19. No campo educacional, esse é o Brasil que está dando certo. As escolas do chamado Sistema S têm apresentando um alto nível de aproveitamento e uma boa capacidade de mobilização rápida no caso de crises como a do Covid-19. Para acudir problemas trazidos pela Covid-19 temos notícia da quase imediata cooperação dessas escolas para prover oxigênio aos hospitais, máscaras às pessoas, alimento às crianças e várias outras ajudas em resposta à grave emergência.

Esta é a hora de deixar de lado a diferença [inexistente] entre educação e formação profissional. As duas fazem parte do mesmo processo de formação de capital humano. E muito podem ajudar as entidades que já encaram as duas dessa maneira. O Brasil corre o grande perigo de ter destruído o pouco capital humano que vinha criando com graves consequências para os jovens, as empresas e a economia. Tenho certeza que as Entidades do Sistema S poderão ajudar a evitar mais esse desastre. Trata-se de uma atividade de salvação nacional é de crucial importância para os jovens, para as empresas e para a economia do Brasil. O governo brasileiro tem vantagem de contar com entidades tão velozes e tão experimentadas na formação de capital humano como são as escolas do Sistema S.   

¹ Professor da Universidade de São Paulo e Consultor da CNC – Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. E-mail: j.pastore@uol.com.br; Site: www.josepastore.com.br. Este artigo expressa apenas as ideias do autor e não da CNC e foi inicialmente divulgado entre os Presidentes das Federações do Comércio do Brasil e diretores das entidades de promoção social e formação profissional do comércio (SESC e SENAC).

² World Bank, Acting now to protect the human capital of our children, Washington: World Bank Group, 2021.

³ Na América Latina, 51% dos estudantes que chegam ao final do curso fundamental não conseguem ler e entender adequadamente um texto ajustado para a sua idade. Esse é o resultado do PISA para 2018. No Brasil, são 48%. Citado no trabalho do Banco Mundial, p. 18.

Citado por Cláudio de Moura Castro, “Ensino remoto desmoraliza o Ensino à Distância”, 2020.

Cálculos do Autor com base em Ricardo Paes de Barros, “Perda com evasão escolar é de R $214 bilhões por ano”, Revista Educação, 29/07/2020).

World Bank, Human Capital in the Time of COVID-19, Washington, World Bank Group. 2020.

World Bank, Acting now to protect the human capital of our children, p. cit. p. 19

George Psacharopoulos e colaboradores, “Lost wages: the covid-19 cost of school closures”, Bonn: Institute of Labor Economics, 2020.

Naercio Menezes Filho, “Depois da pandemia”, Valor, 19/03/2021.


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