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Oportunidades à mão

29 de janeiro de 2021
Para gerar empregos, precisamos investir na formação de profissionais de nível médio

O anúncio de fechamento das fábricas da Ford no Brasil traz à tona a mais importante agenda para o Brasil depois da vacina contra a Covid-19, que é o tema do emprego.

De imediato vem à mente uma pergunta: se ocorreu em Detroit, por que não no Brasil? Entre as justificativas e alegações, ressaltam-se os elevados impostos brasileiros e, de outro, os altos subsídios proporcionados à indústria automobilística.

O que aconteceu com a indústria brasileira em 2019?

A indústria brasileira apresentou em setembro queda de 1,4% no acumulado do ano, na comparação com o mesmo período de 2018, segundo dados do IBGE Daniel Marenco/Folhapress.

Entretanto, devemos adicionar a isso a mais incrível mudança de hábitos de consumo e produção ocorrida desde a Revolução Industrial, no século 19. Na ponta do consumo, chegou “a mobilidade sem a propriedade”, onde ter um carro não é mais importante, principalmente na camada mais jovem da população. Já na ponta da produção, as fábricas brasileiras ficaram obsoletas e custosas, não justificando mais sua manutenção.

Por fim o ambiente hostil a negócios no Brasil, sua inadequada política externa e temas ligados ao meio ambiente tornam o país pouco atraente.

Para isso, a resposta é multidisciplinar e complexa. Mas aquele que está perdendo seu trabalho, e seu filho que não está arrumando o primeiro emprego, não quer saber se a causa é simples ou complexa, O que importa é que as estatísticas de desemprego não param de crescer.

Desemprego no Brasil bate recorde na pandemia

Desemprego no Brasil bate recorde e atinge 13,1 milhões de pessoas Mathilde Missioneiro/Folhapress. Não se pode brigar com os fatos: vivemos uma mudança de paradigma de produção econômica, que necessita respostas à altura por parte do governo, dos empresários e da sociedade. Mas, infelizmente, não é ao que assistimos neste momento.

Vamos às contradições. O Porto Digital de Recife possui cerca de 1.500 vagas para postos dentro da economia digital. Vagas que não conseguem ser preenchidas por absoluta falta de mão de obra especializada. Não estamos falando só de engenheiros, mas de profissões técnicas de nível médio.

Na formação desses profissionais é importante prestigiar programas como o Jovem Aprendiz para que sejam eliminados os “gaps” na formação familiar e escolar e, assim, possam ingressar em escolas com capacidade de oferecer cursos adequados. Sem isso eles não estarão prontos e vão frustrar qualquer tentativa de formação de mão de obra especializada em massa.

Há um quadro de oportunidade que o país necessita aproveitar -não lamentar. Índia, Coreia do Sul e China investiram na formação de profissionais, grande parte em nível médio, para assumir postos neste novo estágio do desenvolvimento tecnológico.

O Brasil que mais cresce

Moderno edifício residencial, apelidado de “as torres gêmeas”, na entrada do Porto Digital; parque tecnológico foi instalado no centro histórico de Recife, antes uma região degradada, que passa por um processo de revitalização Zanone Fraissat

Devemos seguir o exemplo desses países. Formar jovens para essas novas e antigas profissões. Mas devemos fazer com olhos na realidade brasileira, e não simplesmente importando modelos de outras nações. Nesse sentido, o ensino deve vir necessariamente atrelado ao trabalho, o que é perfeitamente viável e em harmonia com a condição de adolescente ou jovem adulto.

A solução está num plano de ação do governo com a classe dos empresários e a sociedade civil, trabalhando com espírito cívico na criação da “Grande Revolução da Educação”.

Humberto Casagrande, CEO do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE)

Miguel de Almeida, escritor e diretor dos documentários “Não Estávamos Ali para Fazer Amigos” e “Tunga, o Esquecimento das Paixões”, é autor de “Primavera nos Dentes” (ed. Três Estrelas)

 

Artigo originalmente publicado na Folha de S. Paulo Online, em 27/01/2021


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