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Ilustração que mostra situações de tristeza, depressão, ansiedade e falta de amparo

De que modo e para quem falamos de sucídio?

21 de setembro de 2021

Convivo com a falta de interesse, sentido na vida desde sempre. Cedo aprendi que o sentido da vida é inventado e para existir, fazer sentido, tem que ser compartilhado. O ser humano é coletivo, é plural, é diverso e complexo, nada é só uma coisa, nada tem apenas um ponto de vista. Cada um olha do lugar de onde está. 

O lugar que ocupamos no mundo nos é dado, ao tempo em que o construímos, somos ativos, desejantes e criativos. Somos seres subjetivos, que criamos e recriamos nossas realidades por meio do significado que damos a nossa existência e as relações.

As relações em nossa sociedade, em sociedades que se propõe a padronizar, planilhar, coisificar a vida são muito sofridas. Sofrimento não é doença, mas mata. Não adianta falarmos de suicídio em setembro, se não conseguimos ouvir, escutar e cuidar das causas geradoras dos sofrimentos. Em uma sociedade competitiva, individualista e preconceituosa, fica difícil valorizar a vida. As exclusões geram isolamentos, falta de cuidados e de afetos.

Excluímos negr@s, indígenas, mulheres, pessoas com deficiência, LGBTQIA+, gord@s, idos@s, pessoas que vieram de fora, têm costumes diferentes, pensam diferente, agem diferente. O diferente nos lembra que somos vulneráveis e queremos esconder isso, mas é nossa vulnerabilidade que nos abre ao outro. Viver as desigualdades sociais é mais sofrido que ser pobre. A barriga dói, o corpo dói, mas a dor da alma, do abandono, da injustiça é insuportável. 

Para fome – comida, para dor da alma – empatia e escuta (como ação imediata) e transformação social. Vivemos nos territórios, onde se realizam as políticas públicas e as priorizações do que se fará com o orçamento público. Não adianta ter dó dos mais vulneráveis, fazer lindas e significativas doações se na hora de se posicionar diante das distribuições das riquezas nacionais, dos impostos, pensar do ponto de vista do bolso, do umbigo e privilégios. Cadê a valorização (de todas) as vidas? 

A pandemia intensificou as desigualdades, os sofrimentos e os abandonos. O contexto social político e econômico de incertezas e rivalidades, falta de perspectivas e esperanças agravaram as angústias. Para a saúde mental é fundamental a garantia dos direitos humanos e o fortalecimento de vínculos de proteção e segurança.

As redes sociais virtuais que ocupam boa parte do tempo das pessoas pioram a sensação de solidão, impotência e incompetência, não são locais reais de partilha e acolhimento, por lá as  situações são idealizadas e amplificadas, o que gera mais ansiedade, automutilações e ideações suicidas para aplacar a dor. 

Esta nova era tecnológica está refazendo a relação tempo – espaço, as redes sociais estão empobrecendo as relações sociais e a vida psíquica. Antes das redes pensávamos na vida, no que foi, no que será, agora estamos só fazendo, não paramos. O cérebro tem limites, estamos exaust@s, é necessário tempo e espaço para tecer a vida. 

O pensamento suicida não é pecado, não é doença, é uma forma de querer parar a dor. Uma outra forma bem eficaz na amenização do sofrimento é contá-lo, compartilhá-lo. Não há dor que não possa ser contada, mas é necessário espaço de escuta. Para valorizar a vida é necessário valorizar a fala. Escutar é entrar em contato, respeitar os tempos, não adianta ouvir rápido e começar a falar. Quem sofre precisa desabafar, nomear, dar forma, contorno e acolhimento a dor. Falar é essencial, para não ser excesso psíquico, é necessário elaboração do vivido. Precisamos falar do negativo, do que incomoda na vida. Não adianta pedir para alguém parar de pensar em algo, não se conecta com quem está na pulsão de morte falando de vida. Falar e não ser escutado, receber respostas rasas, banalizar o pensamento do outro aprofunda o isolamento. A morte pode ser mais palatável que a vida que vivemos e para mexer nesse sentido é necessário criar marca no psiquismo, assentar. Mais que cuidar do evento em si, da automutilação ou da tentativa suicida, é preciso cuidar das condições para que ele possa ser narrável, reconhecível e socialmente compartilhável.

Quando penso em sofrimento sempre lembro de um provérbio sueco: “Alegria partilhada é alegria dobrada, tristeza partilhada é tristeza dividida pela metade”.  A vida precisa valer a pena ser vivida. Precisamos criar espaços geradores de diálogo e empatia, julgar menos e fazer mais, realinhar nossos objetivos sociais, mudar nosso modelo de negócios, tornar o mundo melhor. 

É necessário autocuidado e rede de acolhimento, proteção e pertencimento para produzir as subjetividades de fortalecimento da vida. A lógica que organizamos a vida e chamo de máquina de moer gente,  só vai mudar com uma gigantesca mobilização social. Precisamos nos reconectar com o que realmente importa, nossas metas, nossos valores, nossas vidas. 

Construir um mundo mais possível, mais tolerante, sustentável e cooperativo, no qual as pessoas possam ser o que elas quiserem, se sentir amadas, cuidadas, aceitas e úteis. Lembrando que a mudança começa de dentro.

Luana Bottini, gerente de Projetos Sociais do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE)


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