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Balões de pensamento com um fundo azul

A urgência de formação profissional no pós-pandemia

28 de abril de 2021

José Pastore ¹

As perdas na pandemia

As consequências da paralisia das escolas durante a pandemia serão graves e de longa duração. Isso porque as falhas na aprendizagem dificultarão a entrada dos jovens no mercado de trabalho, reduzirão seus salários e prejudicarão a produtividade dos trabalhadores, das empresas e a da economia em geral. Perder um ano na vida escolar – como ocorreu com milhões de alunos em 2020 – faz um estrago gigantesco no futuro das pessoas e dos países. Isso já havia sido observado em outras pandemias. A peste negra (1347-1352), que matou cerca de 75 milhões de pessoas, devastou muitas cidades e fez diminuir a força de trabalho, ocasionando falta de mão de obra por muitos anos. A gripe espanhola (1918-1920) ceifou 100 milhões de pessoas e afetou a atividade econômica de vários países décadas a fio. 

No cenário mundial, as perdas de dias letivos em 157 países que paralisaram as escolas do ensino fundamental pelo período de 5 a 7 meses, trarão prejuízos assustadores. Ao entrar no mercado de trabalho, cada aluno terá uma redução no salário em torno de US$1.400 por ano e mais de US$25 mil na sua vida profissional, em média. Para 1,5 bilhão de estudantes que ficaram sem aulas naqueles países, as perdas chegarão à devastadora cifra de US$15 trilhões. ² No Brasil os resultados são ainda mais preocupantes: a evasão escolar rotineira do ensino médio provoca uma perda de US$ 40 bilhões por ano, o que daria cerca de US$ 1,2 trilhão durante uma vida profissional de 30 anos. ³ Ao acrescentarmos as perdas provocadas pela paralisação das aulas, o estrago é ainda maior.  

Mesmo sem pandemia, os nossos problemas são graves. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2019 indicou que a aprendizagem dos estudantes brasileiros decai rapidamente à medida que eles avançam nas primeiras cinco séries do Ensino Fundamental I. O mesmo ocorre no Fundamental II. Até as escolas particulares têm desempenho muito aquém da meta de 7,1. As escolas públicas estaduais atingem só 23% da meta fixada para aquele ano. 

Quando se considera que a maioria das crianças e jovens brasileiros ficou mais de seis meses sem aulas em 2020, a perda de renda e de avanços na carreira profissional será monstruosa nos próximos anos. O estrago da suspensão das aulas terá um impacto prolongado na produção, na produtividade, no emprego e na renda dos brasileiros. A recuperação dessas perdas exigirá um esforço redobrado dos pais, dos professores, das escolas e das empresas. 

Preparação para as novas tecnologias

Além dessa recuperação, teremos de concentrar esforços na preparação dos nossos trabalhadores para enfrentar um mundo que se torna cada vez mais exigente em matéria de conhecimentos e habilidades. Para se manter trabalhando e gerando renda para suas famílias, muitos brasileiros serão desafiados a apreender novas tecnologias do campo da automação, robótica, inteligência artificial, computação na nuvem, análise de dados e outras. Os estudantes de hoje sabem disso. Em 2020, a pandemia, o desemprego e a suspensão das aulas presenciais levaram muitos jovens a procurar cursos técnicos on line nas mais diversas áreas do saber. Ampliar a oferta e diversificar os cursos de formação profissional é uma providência indispensável para se usar as tecnologias em favor dos trabalhadores. E, como estamos nesse campo?        

No dia 5 de janeiro de 2021, o presidente Jair Bolsonaro disse que uma das explicações para o desemprego no país é que parte dos brasileiros não tem preparação para fazer “quase nada”. Esse foi o mais franco reconhecimento da falência do nosso ensino numa hora em que a economia moderna exige uma qualificação crescente e permanente de todos os brasileiros. Sem isso, eles serão deslocados pelas inovações tecnológicas. As empresas, por sua vez, perderão o seu capital mais precioso: o capital humano. 

Paul Krugman, Prêmio Nobel de economia (2008) diz que para o crescimento econômico, a produtividade não é tudo, mas é quase tudo. É razoável dizer-se, então, que, para melhorar a produtividade, a educação não é tudo, mas é quase tudo.

Melhorar a produtividade é crucial 

Internacionalmente tem sido demonstrado que o trabalho de boa qualidade é um dos fatores mais importantes para a produtividade. Isso tem reflexos na competitividade das empresas e do País, assim como influencia o emprego e a renda dos trabalhadores. O ex-Presidente Bill Clinton costumava dizer: “Nós estamos vivendo em um mundo onde o que você ganha é função do que você pode aprender”. 

O Brasil está perdendo a corrida nesse campo. Em 1980, a produtividade do trabalhador brasileiro era 670% maior do que a do trabalhador chinês e 70% menor do que a americana. Hoje, o Brasil perde nos dois casos: a produtividade do trabalhador brasileiro é 80% inferior à americana e 18% menor do que a chinesa. No período, a produtividade dos chineses cresceu 895% e a dos brasileiros, meros 6%. 

Formação de boa qualidade 

Hoje em dia, para ter competência profissional, não basta ter frequentado uma escola. É preciso ter apreendido e sedimentado o que ali foi ensinado. Uma coisa é cursar uma escola, outra coisa é apreender. O aprendizado, por sua vez, depende do aluno e da qualidade da escola e dos professores. 

No campo da formação profissional, o teste da qualidade do ensino é feito no próprio mercado de trabalho. As empresas remuneram melhor quem demonstra qualidade e empenho no que faz. Para trabalhadores bem formados, há uma rápida progressão na carreira profissional, menos rotatividade e pouco desemprego. No Brasil, abundam evidências desse tipo entre os egressos das escolas profissionais do SENAC e do SENAI, por exemplo. 

Por que a qualificação profissional conta muito para as pessoas e para as empresas? Porque é um dos fatores mais importantes para absorver inovações, para evitar desperdícios e retrabalho, para melhorar qualidade dos bens e serviços, para reduzir seus custos e preços, para melhor remunerar os trabalhadores e reduzir acidentes e doenças profissionais.  

Requalificação contínua

A formação profissional de boa qualidade é condição de sucesso dos programas de requalificação. Hoje em dia, os trabalhadores precisam ser constantemente reciclados. O Fórum Econômico Mundial estima que o mundo precisará requalificar 1 bilhão de trabalhadores até o ano 2030. Muitas empresas dos países desenvolvidos já entraram nessa cruzada. Uma pesquisa recente trouxe números impressionantes. Nos países da União Europeia, em média, 36% dos adultos entre 25-64 anos participam de atividades de requalificação profissional realizadas pelas próprias empresas. Com isso, elas buscam reter os profissionais de boa qualidade. Essa estratégia vem sendo adotada de modo contínuo e em parceria com escolas profissionais e cursos on line. Com a melhoria da aprendizagem em geral, os trabalhadores têm mais facilidade para adotar novas ideias e novas tecnologias. 

Grande parte dos empresários brasileiros tem consciência dessa necessidade. Mas, como fazer isso? Em pesquisa recente, 36,9% pretendem treinar seus empregados nas próprias empresas; 22,6% acham que terão sucesso com o treinamento externo e on line; 19,9% acreditam na força das instituições de treinamento privadas; 8,6% buscam instituições de ensino geral privadas; 6,7% acreditam em instituições de ensino geral públicas; e apenas 5,3% em instituições de treinamento públicas. É pouco provável que as instituições de ensino geral, públicas ou privadas, deem conta de programas de requalificação continuados. Resta então a requalificação nas próprias empresas, em cursos on line ou em instituições de treinamento privadas. 

Tecnologias e ética do trabalho 

No campo do comércio e serviços a incorporação de novas tecnologias pelas empresas tem sido impressionante. O comércio eletrônico cresce numa velocidade espantosa e requer profissionais preparados em promoção digital, identificação de nichos de consumidores, promoção via redes sociais, atendimento pós-venda, competência para contratar e administrar terceiros, logística para compras, entregas e assistência técnica, etc. No campo dos serviços então a entrada de novas tecnologias é meteórica nos campos da administração, contabilidade, auditoria, medicina, segurança, educação, finanças, seguros e muitas outras.  No campo do turismo, a digitação e a inteligência artificial estão revolucionando os modos de trabalhar.

Além da demanda por competência cognitiva, aumenta cada vez mais a demanda por habilidades socioemocionais que permitem às pessoas trabalhar em grupo, exercer liderança, tratar os colegas e os consumidores com cortesia e respeito e cultivar, em última análise, a boa ética do trabalho. 

As habilidades socioemocionais resultam da ação das escolas que valorizam a ética do trabalho. Nas escolas profissionais administradas pelas empresas como é o caso do SENAC e SENAI, a ética do trabalho reflete, em grande parte, os valores dos próprios empresários. Não se conhece empresários de sucesso que mantenham as empresas sujas, que desrespeitem os consumidores ou que trabalhem de forma desleixada e em ambientes desorganizados. Em outras palavras, o “ethos” das entidades educacionais mantidas pelos empresários do comércio e da indústria decorre da íntima interface entre as empresas e as escolas. Isto também conta muito para a produtividade.

Em suma, a educação é um ativo estratégico para a produtividade e a competitividade brasileiras. A chave do sucesso das escolas depende em grande parte da boa gestão e da dedicação de professores qualificados. No que tange ao comércio e serviços, esse setor é o que mais contribui para o Produto Interno Bruto (PIB) e para o emprego. É uma tendência que veio para ficar. E para crescer mais e recuperar os estragos trazidos pela pandemia, será crucial avançar no campo da qualificação profissional. No Brasil, menos de 10% dos jovens cursam escolas técnicas nesse nível, em contraste com países avançados, onde a proporção é superior a 30% e 40%. Se há alguma coisa a fazer nesse campo é de aumentar o número de escolas profissionais de boa qualidade e fortalecer ainda mais as atuais. Nada justifica querer cortar os seus recursos e asfixiar o seu trabalho, especialmente no momento em vamos sair de uma crise que provocou perdas de grande monta na formação das crianças e dos jovens.  

¹ Professor da Universidade de São Paulo e Consultor da CNC – Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. E-mail: j.pastore@uol.com.br; Site: www.josepastore.com.br. Este artigo expressa apenas as ideias do autor e não da CNC e foi inicialmente divulgado entre os Presidentes das Federações do Comércio do Brasil e diretores das entidades de promoção social e formação profissional do comércio (SESC e SENAC).

² George Psacharopoulos e colaboradores, “Lost wages: the covid-19 cost of school closures”, Bonn: Institute of Labor Economics, 2020.

³ Cálculos do Autor com base em Ricardo Paes de Barros, “Perda com evasão escolar é de R$ 214 bilhões por ano”, Revista Educação, 29/07/2020).

Giorgio Brunello e Patricia Wruuck, “Employer provided training in Europe”, Boon: Institute of Labor Economics, 2020.

World Economic Forum, “The future of Jobs”, Genebra: World Economic Forum, 2020, p. 72.